Outra vez estou aqui, praticamente rendida aos seus pés. Exijo que me olhe enquanto falo, você sorri sarcasticamente, e diz que nada que eu tenho a dizer te interessa. Em desespero, te digo que preciso aclarar a situação, que já não posso seguir com essa tormenta na minha cabeça, estou atordoada. Então você finalmente me olha, como quem sente o sabor da vingança, e seus olhos queimam de satisfação, abaixo os meus, não posso sustentar. Você me diz que jamais quer voltar a me ver, que eu fui um erro, o pior dos erros. Que se arrepende de um dia ter se aproximado e que sua maior conquista foi ter me arrancado da sua cabeça. Suas palavras me soam como gritos embebidos no mais amargo rancor e, estranhamente, não vejo outra opção senão me afogar neste amargor. Ergo meus olhos novamente e sou surpreendida pelos seus, fixos em mim e escondidos atrás de ódio e lágrimas presas. Eu já vi esses olhos antes, posso sentir o mesmo que você sente agora. Talvez você tenha percebido que ainda não pode me odiar, o que te faz me odiar ainda mais. Te digo então que te entendo, ao que você se aproxima intempestivamente e puxa meu corpo contra o seu. Agora nossos rostos estão à centímetros de distância, sinto sua respiração e me fixo no seu olhar, ainda turvo de lágrimas, que me encaram como se você estivesse a beira da loucura. Você nega com a cabeça desesperadamente e me diz em meio a um riso insano que não, eu não te entendo, que nada do que eu possa sentir algum dia se compara ao que você está sentindo nesse exato momento. Então, sem tirar os olhos dos seus, percebo meu destino. Sinto a ponta de um punhal tocar a pele das minhas costas. Fecho os olhos, respiro profundamente, volto a encarar os seus e te digo que estou pronta para o meu destino, mas que infelizmente você não faz parte dele. Então, em um movimento rápido que sequer sabia que seria capaz de fazer, me viro e retiro o punhal de sua mão. Então você me observa, atônito, enquanto eu te digo que você não terá meu sangue em suas mãos, ao mesmo tempo que me deleito em deslizar a ponta do punhal pelo meu rosto, pescoço, colo, até chegar ao peito. Então vejo que uma lágrima finalmente te escapa em meio a um sorriso triste. Você diz que te surpreendi de novo, que agora eu tenho alguma chance de te entender e que, mesmo vendo minha vida se esvair afogada no meu sangue, sabe que o que sinto por você é capaz de superar até a morte.
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