quarta-feira, 22 de julho de 2020

Canção

Queria eu não ter sido a menina que viveu para escrever canções de amor. Queria ter sido a estudante, a profissional, a filha, a mulher... Queria ter vivido uma vida, não tão somente carregar uma existência sem razão de ser. Queria ter conseguido ser uma pessoa completa.
Eu tentei.
Hoje, aqui, de olhos fechados, pude ouvir o som do mar. Mas do calor que outrora me abraçava não resta nada, agora somente sinto o vento gélido passar por mim, me fazendo estremecer. Abro os olhos e me vejo aqui, de novo nessa ponte, tão perto do fim. Essa noite o céu está límpido, as estrelas assistindo o desenrolar e discutindo entre si qual será o desfecho dessa história. Me sinto entorpecida, e já não sei se tem algo a ver com a garrafa vazia que está caída aqui aos meus pés ou se é pela dor que tantas vezes me matou em vida. Mas agora, diferente de ontem, sinto paz.
Ah, os momentos felizes... Me lembro deles também, os  instantes pelos quais valeu a pena estar viva. Queria eu que não tivessem sido tão breves, queria eu que as canções de amor fossem o espelho de uma vida feliz. Mas você foi embora.
Me consome pensar que tudo poderia ser diferente, que eu poderia ter feito mais, que poderia ter sido melhor, que eu poderia ter impedido que você se fosse, mesmo que tenha feito isso por querer te ver feliz. Será que algo teria mudado? Será que eu ainda seria a menina das canções de amor se nunca tivesse te encontrado?
Hoje vou embora, e essas perguntas se vão comigo.
Nesses poucos minutos que me restam, fecho os olhos e imagino seus olhos uma última vez. Minha imaginação percorre cada centímetro do seu corpo, e sei que esta é a última memória que quero levar comigo. Então eu finalmente salto.
Queria eu que fosse para os seus braços.
Queria eu poder ter ouvido dos seus lábios uma última canção de amor.

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