Então sinto os dedos da morte gentilmente cercando meu pescoço, fecho os olhos e suspiro, grata por finalmente me sentir tão perto dela. Carregar a vida é perturbador, é pesado, é inútil pra mim.
Já não quero estar mais entre vocês, que brincam de viver e sorrir. Quero entregar-me ao nada que sou, não sentir, não ver. Não sei o que há antes ou após essa vida, mas me contento com o simples estado de não estar.
Outrora quis morrer pra acabar com a dor, mas não agora. Me sinto anestesiada, sem vontade, eu realmente não quero estar aqui e não tem um só segundo em que não pense em descansar nos braços gelados dela.
Estou cansada.
quinta-feira, 30 de julho de 2020
#18
quarta-feira, 22 de julho de 2020
Canção
Queria eu não ter sido a menina que viveu para escrever canções de amor. Queria ter sido a estudante, a profissional, a filha, a mulher... Queria ter vivido uma vida, não tão somente carregar uma existência sem razão de ser. Queria ter conseguido ser uma pessoa completa.
Eu tentei.
Hoje, aqui, de olhos fechados, pude ouvir o som do mar. Mas do calor que outrora me abraçava não resta nada, agora somente sinto o vento gélido passar por mim, me fazendo estremecer. Abro os olhos e me vejo aqui, de novo nessa ponte, tão perto do fim. Essa noite o céu está límpido, as estrelas assistindo o desenrolar e discutindo entre si qual será o desfecho dessa história. Me sinto entorpecida, e já não sei se tem algo a ver com a garrafa vazia que está caída aqui aos meus pés ou se é pela dor que tantas vezes me matou em vida. Mas agora, diferente de ontem, sinto paz.
Ah, os momentos felizes... Me lembro deles também, os instantes pelos quais valeu a pena estar viva. Queria eu que não tivessem sido tão breves, queria eu que as canções de amor fossem o espelho de uma vida feliz. Mas você foi embora.
Me consome pensar que tudo poderia ser diferente, que eu poderia ter feito mais, que poderia ter sido melhor, que eu poderia ter impedido que você se fosse, mesmo que tenha feito isso por querer te ver feliz. Será que algo teria mudado? Será que eu ainda seria a menina das canções de amor se nunca tivesse te encontrado?
Hoje vou embora, e essas perguntas se vão comigo.
Nesses poucos minutos que me restam, fecho os olhos e imagino seus olhos uma última vez. Minha imaginação percorre cada centímetro do seu corpo, e sei que esta é a última memória que quero levar comigo. Então eu finalmente salto.
Queria eu que fosse para os seus braços.
Queria eu poder ter ouvido dos seus lábios uma última canção de amor.
terça-feira, 21 de julho de 2020
¿Estuve mirando a tus ojos?
Outra vez estou aqui, praticamente rendida aos seus pés. Exijo que me olhe enquanto falo, você sorri sarcasticamente, e diz que nada que eu tenho a dizer te interessa. Em desespero, te digo que preciso aclarar a situação, que já não posso seguir com essa tormenta na minha cabeça, estou atordoada. Então você finalmente me olha, como quem sente o sabor da vingança, e seus olhos queimam de satisfação, abaixo os meus, não posso sustentar. Você me diz que jamais quer voltar a me ver, que eu fui um erro, o pior dos erros. Que se arrepende de um dia ter se aproximado e que sua maior conquista foi ter me arrancado da sua cabeça. Suas palavras me soam como gritos embebidos no mais amargo rancor e, estranhamente, não vejo outra opção senão me afogar neste amargor. Ergo meus olhos novamente e sou surpreendida pelos seus, fixos em mim e escondidos atrás de ódio e lágrimas presas. Eu já vi esses olhos antes, posso sentir o mesmo que você sente agora. Talvez você tenha percebido que ainda não pode me odiar, o que te faz me odiar ainda mais. Te digo então que te entendo, ao que você se aproxima intempestivamente e puxa meu corpo contra o seu. Agora nossos rostos estão à centímetros de distância, sinto sua respiração e me fixo no seu olhar, ainda turvo de lágrimas, que me encaram como se você estivesse a beira da loucura. Você nega com a cabeça desesperadamente e me diz em meio a um riso insano que não, eu não te entendo, que nada do que eu possa sentir algum dia se compara ao que você está sentindo nesse exato momento. Então, sem tirar os olhos dos seus, percebo meu destino. Sinto a ponta de um punhal tocar a pele das minhas costas. Fecho os olhos, respiro profundamente, volto a encarar os seus e te digo que estou pronta para o meu destino, mas que infelizmente você não faz parte dele. Então, em um movimento rápido que sequer sabia que seria capaz de fazer, me viro e retiro o punhal de sua mão. Então você me observa, atônito, enquanto eu te digo que você não terá meu sangue em suas mãos, ao mesmo tempo que me deleito em deslizar a ponta do punhal pelo meu rosto, pescoço, colo, até chegar ao peito. Então vejo que uma lágrima finalmente te escapa em meio a um sorriso triste. Você diz que te surpreendi de novo, que agora eu tenho alguma chance de te entender e que, mesmo vendo minha vida se esvair afogada no meu sangue, sabe que o que sinto por você é capaz de superar até a morte.